Museu Memorial

 

PRETOS NOVOS

“Pretos novos” ou “boçais” era a denominação dada aos cativos recém-chegados da África, no Brasil,assim que desembarcavam no porto. Logo que eram vendidos ou aprendiam a o português passavam a ser chamados de “ladinos”.

 

PARA ENTENDER A SUA IMPORTÂNCIA

O sítio arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou durante os anos de 1769 a 1830, é a principal prova material e incontestável, encontrada até hoje, sobre a barbárie ocorrida no período mais intenso do tráfico de cativos africanos para o Brasil. Depois da descoberta fortuita feita pela família Guimarães dos Anjos, em 8 de janeiro de 1996, não há mais como admitir uma visão equivocada e romanceada sobre a escravidão de africanos e seus descendentes diretos no Brasil. Foram depositados neste cemitério os restos mortais de dezenas de milhares de africanos, brutalmente retirados de sua terra natal e trazidos à força para o trabalho escravo. E igualmente bruta também era a forma como seus corpos foram despedaçados, queimados e espalhados pelo terreno, cobertos apenas com algumas pás de terra. Há indícios de que, dada a situação de descarte humano que apresentava o local, moradores daquela época que passavam pela Rua do Cemitério lançavam seu lixo doméstico: restos de comida e fragmentos de louças, cerâmicas e vidros.

Apesar de ser considerado o maior cemitério de escravos deste gênero nas Américas, o terreno destinado aos sepultamentos era muito pequeno para tantos corpos. Os vestígios arqueológicos e históricos deste campo santo são testemunhos da ação violenta e cruel sofrida pelos africanos que não resistiram aos maus tratos da captura e viagem transatlântica. Este relato revelado pela historiografia e trazido à luz pela Arqueologia, repleto de desrespeito e dor, ainda é desconhecido por muitos, pois não é contado em todas as escolas e nem sequer é mencionado nos livros de história que têm a escravidão como tema. Por isto, reafirma-se a importância deste Museu Memorial, no qual o Cemitério dos Pretos Novos se impõe como peça central para este debate.

Marco Antonio Teobaldo

curador

 

 

ORIGEM

G. W. Freireyss, o viajante alemão que descreveu o cemitério notou horrorizado que, neste local, a única marca da égide da Igreja era “uma pequena cruz de paus toscos mui velhos” fincada no centro do terreiro e cercada por ossadas inse­pultas.

Pelo lado do fundo está tudo aberto, dividido do quintal de uma propriedade vizinha por uma cerca de esteiras, e pelos outros dois lados com mui baixo muro de tijolos, e no meio uma pequena cruz de paus toscos mui velhos, e a terra do campo revolvida, e juncada de ossos mal queimados.

 

Os relatos de viajantes que estiveram pelo Rio de Janeiro, no século XIX, contam que o Cemitério dos Pretos Novos não passava de uma montanha de terra e de corpos despidos, em decomposição, que de tempos em tempos eram queimados e seus ossos quebrados e revirados à terra. Em 1853, o Caminho do Cemitério passa a se chamar Rua da Harmonia. Embora a existência do Cemitério dos Pretos Novos fosse conhecida de historiadores e da literatura sobre a cidade do Rio de Janeiro e sobre a escravidão no Brasil, sua localização tornou-se totalmente desconhecida por décadas até o ano de 1996, quando, por ocasião de uma obra realizada na fundação da casa, foram encontradas ossadas humanas a poucos centímetros de escavação.

A pesquisa inicial e a análise dos vestígios arqueológicos, feitas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), confirmaram que se tratava das ossadas depositadas no antigo Cemitério dos Pretos Novos. Após quatro anos de descaso do poder público, a Família Guimarães dos Anjos decide realizar por conta própria exposições itinerantes com o rico material encontrado nas escavações. Mas reconhecendo a importância do local para a história da cidade do Rio de Janeiro e para a divulgação da história dos Pretos Novos, percebem que ali deveria se tornar um espaço de visitação pública.

No dia 20 de novembro de 2001 foi realizado o primeiro evento aberto ao público na residência. As atividades eram realizadas de maneira irregular e sem qualquer tipo de patrocínio ou subvenção, como por exemplo: os encontros com lideranças do movimento negro, rodas de samba e os bate-papos, que foram o embrião das oficinas realizadas atualmente.

No início, muito pouco se sabia sobre a história desses africanos sequestrados e trazidos para o Brasil. Os poucos registros encontrados sobre o tema falavam de números, mas muito pouco sobre a chegada e a vida do negro africano na colônia. Este fato é o que tem inspirado a trajetória do IPN a desenvolver atividades diversificadas voltadas à divulgação e à valorização da cultura negra.

 

EXPOSIÇÃO PERMANENTE

Em 2010, após ter sido selecionado em edital público para Ponto de Cultura, o IPN iniciou as atividades de oficinas de História. Com uma sobra mínima de recurso financeiro e o apoio de alguns artistas voluntários, foi idealizada a primeira versão da exposição permanente do Memorial Pretos Novos. Pela primeira vez, os visitantes puderam ver o trabalho realizado pelos arqueólogos nos poços de sondagem, que contextualiza a brutalidade das atividades funerárias impingidas aos corpos dos africanos recém-chegados ao Rio de Janeiro.

Em 2017, o projeto de renovação do Memorial Pretos Novos recebeu o Prêmio Afro Nacional – categoria especial, com o qual remonta a exposição permanente com informações atualizadas, sobre as pesquisas realizadas a partir da quarta investigação arqueológica.

(Conheça também a exposição anterior)

 

MERCADO DA ESCRAVIDÃO NO RIO DE JANEIRO

A história do Brasil precisa ser recontada por uma ótica não colonialista, a fim de contribuir para revelar o conhecimento e promover novas formas de reflexão sobre as origens do povo brasileiro. Estima-se, de forma conservadora, que a partir de 1580, começaram a chegar regularmente os primeiros grupos de africanos escravizados no Brasil. Mas somente mais tarde, em 1640, o negócio negreiro se expande com mais força, aumentando o número de cativos com o incremento do cultivo da cana-de-açúcar e a criação de novos engenhos nas capitanias do nordeste brasileiro e na capitania de São Vicente, incluindo o Rio de Janeiro, sobretudo nas áreas que iriam se tornar na Zona Norte e Zona Oeste da cidade. No início, o mercado de africanos escravizados se estabeleceu na Rua Direita (onde atualmente é a Rua Primeiro de Março), permanecendo ali até 1774, quando o vice-rei Marquês do Lavradio deu ordem para transferir definitivamente as operações de desembarque, manejo, venda e enterro de cativos para a região do Valongo. É dele a autoria da frase: Os escravos que não forem vendidos não sairão do Valongo nem mortos. O processo a que estes homens e mulheres (em sua maioria, muito jovens) foram submetidos é de uma violência descomunal. Pelas ruas do bairro do Valongo, estima-se que tenham passado mais de um milhão de africanos capturados para servirem à escravidão.

 

 

COMPLEXO DO VALONGO E VALONGUINHO

O Brasil foi o maior mercado escravista do mundo durante o século XIX, e foi também o último país a extinguir a escravidão africana nas Américas. Este mercado de seres humanos atingiu o seu ápice após a chegada da família real portuguesa, em 1808, fugida das tropas de Napoleão Bonaparte (que invadira Portugal por não respeitar o Bloqueio Continental imposto à Inglaterra). É nesse período que o Valongo se estabeleceu como a área comercial mais rentável na cidade do Rio de Janeiro, com o mercado de africanos escravizados. Cerca de 40% dos africanos cativos chegavam muito debilitados e acometidos de diversas enfermidades, desnutridos ou feridos, e por isso eram encaminhados para o Lazareto de Escravos, que funcionou nas ilhas de Bom Jesus, Enchadas e depois, no litoral da praia do Propósito, Saco da Gamboa. Era na enseada do Valonguinho, na confluência com a Rua do Valongo (Rua Sacadura Cabral com a Rua Camerino) era o ponto de concentração das casas de venda dos cativos. Há relatos de que estendeu-se também para a rua da Praia do Valongo (atual Rua Sacadura Cabral) e Prainha (Largo de São Francisco). O Valonguinho compreendia a área da pequena enseada entre a Pedra do Sal e a Pedreira do Valongo. Pesquisas apontam que a cultura afro-carioca o seu berço nesta região. Nas proximidades do Valonguinho, trabalhadores do porto, descendentes de escravos, imigrantes europeus e boêmios cariocas, formataram aquilo que conhecemos como “alma carioca”. Foi ali que Donga, Pixinguinha e outros bambas ajudaram a criar o Chorinho e o Samba de roda carioca. A região portuária era tão rica culturalmente que, na década de 50 do século XX, o compositor e artista plástico, Heitor dos Prazeres, batizou a região como “Pequena África”.