Memória à Flor da Tela
Em 1869, o fotógrafo alemão Alberto Henschel (Berlim – Alemanha, 13 de junho de 1827 / Rio de Janeiro – Brasil, 30 de junho de 1882) percorreu Recife com sua câmera e fixou, sobre papel e prata, os rostos de africanos escravizados. Eram retratos encomendados sob o signo do olhar colonial, imagens que documentavam corpos negros como objetos de curiosidade, classificação e posse. O registro sobreviveu. Os nomes, não.
Mais de um século e meio depois, Geléia da Rocinha olha para essas fotografias e recusa a lógica que as produziu.
O que ele devolve não é uma memória restaurada pela nostalgia, mas uma memória reinventada pelo sagrado. Em cada tela da sua mais nova série, “Memória à flor da tela”, pinturas em acrílica sobre MDF, produzidas em seu ateliê em São Gonçalo, uma figura fotografada por Henschel ressurge adornada com os símbolos, as cores e as insígnias dos orixás do Candomblé. Onde havia um retrato sem nome, há agora uma divindade. Onde havia um corpo marcado pela violência colonial, há uma presença espiritual que transcende qualquer arquivo.
São oito obras: Memória de Exu, Memória de Ogum, Memória de Omolu, Memória de Nanã, Memória de Xangô, Memória de Yemanjá, Memória de Oxum e Memória de Oxumaré. Juntas, elas formam um panteão, não como alegoria, mas como ato de fé e de justiça poética. Cada figura recebe um nome que a escravidão tentou apagar. Cada rosto, envolvido agora pelas pimentas de Exu, pelas espadas de Ogum, pelas flores de Nanã, pelas contas de Yemanjá, torna-se veículo de uma ancestralidade que o tempo não conseguiu extinguir.
A linguagem plástica de Geléia da Rocinha potencializa essa operação. Seu traço é vigoroso, frontal e sem concessões ao eufemismo estético. As paletas são vibrantes e intencionais: o vermelho e o preto de Exu, o azul marinho e prateado de Ogum, o branco e o azul de Yemanjá, o amarelo solar de Oxum. Cada cor é teologia, cada forma é símbolo. A pintura não ilustra os orixás: ela os convoca.
Autodidata, nascido e criado na Rocinha, Geléia da Rocinha carrega em sua obra a síntese de uma tradição que não passa pelos museus canônicos, nem pelas academias de belas-artes, mas que se forjou nas ruas, nos terreiros, nas festas e nas memórias coletivas das comunidades negras e periféricas do Brasil. Essa trajetória não é marginalidade: é outro centro. E é precisamente desse lugar que sua arte possui a legitimidade que nenhum diploma poderia conferir.
Não é por acaso que esta exposição abre as portas do Centro Cultural Pretos Novos, novo espaço de arte e educação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), na Gamboa. Este bairro carrega no subsolo, e na memória, os vestígios do Cemitério dos Pretos Novos, sítio arqueológico onde foram enterrados africanos escravizados que morreram logo após o desembarque no porto do Rio de Janeiro, sem nome, sem ritual, sem sepultura digna. O IPN nasceu justamente para que esse esquecimento imposto não se perpetuasse.
“Memória à flor da tela” dialoga com essa fundação de forma profunda e necessária. Se o Cemitério dos Pretos Novos é o lugar onde os corpos foram depositados sem nome, a série de Geléia da Rocinha é o lugar onde os nomes retornam, e retornam como potência sagrada. A exposição não é um réquiem. É uma convocação.
Olhar para essas pinturas é ser interpelado por rostos que já não aceitam o anonimato. É reconhecer que a memória não é apenas o que se guarda, mas o que se escolhe restituir e de que forma. Geléia da Rocinha escolheu a beleza, a espiritualidade e a cor. Escolheu devolver a essas figuras o que a história lhes negou: um nome, uma força, uma presença que permanece.
Marco Antonio Teobaldo
Curador e museólogo
Centro Cultural Pretos Novos
Gamboa, Rio de Janeiro
13 de maio de 2026.